Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

domingo, 30 de março de 2014


        MEDICINA EM MACAU


                                        VI

                MÉDICOS JESUÍTAS NA CHINA


   Relação do sucesso que teve na China e Corte de Pequim
                         a chegada dos médicos europeus

    Resumo da transcrição feita pelo Dr. José Caetano Soares de «Jesuítas na Ásia»



O Imperador da China pediu ao Padre Grimaldi que lhe enviasse para a Corte um médico europeu.
A ideia não agradava aos Padres de Macau. Teriam pouca fé no sucesso da Medicina Europeia na China. Por outro lado, faltariam os médicos na cidade. A ideia tardou a concretizar-se.
Anos depois, já em 1691, o Jesuíta Isidoro Lucci, italiano que tinha em tempos estudado Medicina e pretendia missionar no Japão, desembarcou em Macau. Grimaldi, sabendo que a Corte seria informada de que chegara outro médico ao pequeno domínio português, fê-lo seguir viagem. Lucci partiu para Pequim em maio de 1692, acompanhado pelo cirurgião João Baptista Lima, que “ainda que china de nação, se criara entre europeus em Goa, Batávia e Sião” e servia o Senado.
A sabedoria milenar chinesa aconselhava a desconfiança. O médico Lucci foi sujeito a testes e a sorte não o beneficiou. Os doentes com que foi confrontado não o deixaram brilhar: uma mulher histérica, um caso grave de tifo exantemático, uma varíola hemorrágica, um caso de reumatismo arrastado e uma tuberculose em fase terminal.
No dizer doutro jesuíta, que escreveu de Pequim “os casos não lhe sucederam bem e a medicina europeia não saiu deles com grande honra”.
O cirurgião Lima teve melhor sorte. Tratou “postemas, alporcas, chagas mal incarnadas e mal dos olhos”. Na opinião dos Padres, mostrou-se competente: “com a longa experiência, tinha boas receitas e melhores mãos, além da natural audácia…
Exibiu a ousadia atrevendo-se a drenar um abcesso parotidiano dum jovem príncipe, 9º filho do Imperador Kang Hsi. Fê-lo, segundo consta dos relatos, com um ferro ao rubro. A meio da noite, foi mandado chamar. O príncipe desfalecera. Depois de observar o doente, declarou que “o menino nada tinha, salvo o medo que os seus lhe tinham causado".
João Baptista Lima arriscava a vida. Havia quem dissesse: “se o menino morrer, não morre só”. A criança curou-se e o cirurgião ganhou fama e proveito.
Um dia, o próprio Imperador adoeceu com febre alta e, apesar das fracas provas dadas, Lucci foi chamado ao Palácio, acompanhado do velho Padre Francisco Simões, Superior da Missão no interior. Os Jesuítas não quiseram arriscar o prestígio da Companhia. Observaram o ilustre doente, mas não fizeram prescrições, alegando não haver em Pequim os remédios europeus adequados.  

Fonte: Padre Manuel Teixeira, A Medicina em Macau. Governo de Macau, 1998.


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