Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


     RECORDANDO JOSÉ PAULINO PEREIRA


     Conheci o doutor Paulino quando me instalei em Setúbal, finda a minha comissão de serviço militar a bordo do navio hospital Gil Eannes. Paulino Pereira fazia parte de um grupo ilustre de médicos que se radicara na cidade  duas ou três décadas atrás e contribuíra para elevar a eficácia e o bom nome do Hospital de São Bernardo, ajudando a aproximar o nível técnico dos Hospitais Distritais de muito do que de bom se fazia nos Hospitais Centrais.
     No fim da vida, elaborou um livro de lembranças e de reflexões, muito ao jeito do que tenho procurado fazer no “historinhasdamedicina”. O destino não quis que visse a obra publicada. Faleceu semanas antes, no termo de uma vida longa e proveitosa.
     Coube-me a honra de representar a Ordem dos Médicos na cerimónia de apresentação do seu livro “Bisturi do tempo”. Vou divulgar aqui uma das histórias da sua vida clínica, contada nesse livro.

     Recordo alguns momentos emocionantes, como aquele que vivi, numa noite, quando nos apareceu um rapazinho dos seus vinte anos, com uma facada no coração. Alguém, numa rixa noturna, à saída duma «boîte», lhe vibrara o golpe que o deixara assim, sem acordo, lavado em sangue, entre a vida e a morte. Não havia tempo a perder. Embora não vocacionado para a cirurgia torácica, decidi avançar imediatamente. Era o tudo ou o nada. Uma vez recuperado do estado de choque e enquanto se comprimia a ferida, refleti uns segundos: aguentará a intervenção de tórax aberto? O anestesista acenava-me afirmativamente. Atirei-me então para o desconhecido, como se à porta de um avião, munido de para quedas, me convidassem a saltar para o espaço imenso, onde jamais mergulhara…! Pela primeira vez na minha vida de cirurgião, senti palpitar nas minhas mãos aquele órgão vital que marca o ritmo da vida. O meu ajudante, debaixo da máscara, balbuciava monossílabos que o meu subconsciente interpretava como incitamento: «Vamos bem… Já sangra menos… Aqui está a ferida… Falta só suturá-la…»
     Sentia a máscara ensopada de suor e de sangue que, por vezes, esguichava. Era forçoso andar depressa, pois o coração no seu bater constante, não permitia que os «pontos» passassem com facilidade. Ao dar o primeiro, aquela torneira diminuiu o seu débito. O ajudante voltou a balbuciar: «Bom…» Mas a intervenção ainda estava longe do final. Eu sentia-me mais senhor da situação. Outro «ponto» e tinha a vitória comigo. E foi mesmo assim. Como por encanto, aquela ferida, quase mortal, deixou de sangrar. Um olhar vago para o anestesista deu-me a certeza de que a primeira parte da batalha estava ganha. Apertei então a mão do meu ajudante, sem dizer palavra…
     … Enquanto nos lavávamos, eufórico com o acontecimento, tão fora do comum, não pude deixar de dizer em voz alta:
     − E diz a minha mulher que, lá em casa, por falta de jeito, nem sou capaz de pregar um prego na parede…

Referências:
José Paulino Pereira, Bisturi do Tempo, Edição de autor, Setúbal, 2008.
Fotografia: contracapa do mesmo livro.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011


            RECORDANDO AMÍLCAR CASTANHINHA

Conheci o doutor Castanhinha no Hospital dos Capuchos e trabalhei com ele durante anos em S. José. Homem inteligente, culto, dotado de fino sentido de humor e de conversa agradável, tinha uma sólida formação neurológica mas não era propriamente um aficionado do trabalho clínico. Quando tínhamos muito que fazer, chegávamos a recear encontrá-lo nos corredores do Hospital. Sendo ele mais velho, não nos ficava bem interromper a conversa e abalar.
Militara ativamente na oposição ao salazarismo e, a dada altura, refugiara-se em Argel, onde foi representante oficial do general Humberto Delgado até ao seu assassinato em 1965. Ocorriam dissidências entre os oposicionistas portugueses no exílio e Castanhinha foi preso, juntamente com um grupo de portugueses, pela polícia argelina. Foi libertado por ordem de Ben Bella, após intercedência de Josie Fanon, esposa do mítico pensador e psiquiatra Frantz Fanon. Não conheço as circunstâncias do seu regresso. Poderá ter feito com o Regime um acordo do género “tu não nos incomodas e nós deixamos-te em paz”, já que pôde voltar ao País e à carreira hospitalar.
Não tenho conhecimento de qualquer atividade política que tenha posteriormente exercido fora do âmbito profissional. Durante anos, foi dos pensadores mais notados a registar as suas reflexões no Boletim da Ordem dos Médicos. Quando a fação a que se aliara foi vencida, reagiu com amargura e com humor, ao seu estilo pessoal: “Aquilo não é uma Ordem! É um Bando!”
Numa tarde do tempo antigo, cruzei-me com ele num corredor do Hospital de S. José. Estava bem-disposto e provocou-me:
−Trabulo! Eu, às vezes, leio a Bíblia. Sabe que o profeta não sei quê (disse-me o nome, mas não o fixei) se zangou quando um jovem lhe chamou careca. Amaldiçoou−o e o rapaz morreu.
Respondi:
− O profeta era ruim…
Sorriu com os olhos e afastou-se.
Encontrei-o pela última vez na sede da Ordem dos Médicos. Terá sido por altura de eleições. Eu cumpria algumas horas de serviço em volta das urnas por conta do Colégio de Neurocirurgia. Por alguma razão que não recordo – eventualmente por ter sido sugerida a possibilidade de vitória de um candidato a bastonário que não nos agradava, bati com os nós dos dedos no tampo de uma mesa. Amílcar Castanhinha questionou-me:
− Sabe donde vem esse seu gesto?
− Não faço ideia. Não sou supersticioso…
− Eu conto-lhe. Nas cruzadas, os cavaleiros cristãos usavam armaduras pesadas que lhes protegiam quase todo o corpo. No entanto, antes dos combates, levantavam o braço para fazer o sinal da cruz e expunham as axilas. Uns tantos foram atingidos pelas flechas muçulmanas. O papa (disse-me o nome, mas esqueci-o) fez sair uma bula que substituía o sinal da cruz por três pancadas na sela do cavalo. As selas, ao tempo, eram de madeira.
A história tanto podia ter sido recolhida como inventada. É bonita à mesma e conto-a muitas vezes.
Nesse dia, o doutor Castanhinha estava feliz por ter finalmente podido dispensar a algália, meses após a cirurgia da próstata. Comentava:
− Sabe, Trabulo? O meu PSA nem era elevado…
Faleceu poucos meses depois. O coração atraiçoou-o. Acho que, tal como eu, fazia coleção de máscaras. Ficou um colecionador a menos. Deixou-nos também um homem bom.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011


                     AMATO LUSITANO 

    HISTÓRIAS DAS CENTÚRIAS


    Na obra de João Rodrigues de Castelo Branco encontram-se pequenas histórias saborosas. Vejamos a  CURA XLVII da segunda CENTÚRIA. Intitula-se:

      DE UM INDIVÍDUO QUE, ESTANDO ATORMENTADO DE DISENTERIA, COMETEU COITO COM A MULHER E FICOU SÃO.

  Curámos muitos doentes atacados de disenteria epidémica e, entre eles, um alveitar (veterinário). 
 Como a disenteria o oprimisse fortemente encaminhou-se de noite para uma mulher sua vizinha, de pénis ereto, e teve com ela agradável himeneu, cessando logo as dejeções, como me contou depois, ao visitar-me pela manhã. Ficou de boa saúde.

     Nos comentários , Amato Lusitano cita o Médico da ilha de Cós:

     Disse Hipócrates nas últimas palavras dos livros De Morbis Vulgaribus que a disenteria se cura com a vida lasciva. A frequência dos prostíbulos é, como ele diz, uma torpe licenciosidade, de que o cínico Diógenes usou quando esperava a meretriz. Como tivesse chegado tarde junto dele que a esperava, apresentou-se-lhe vergonhosamente e contra o preceito de Deus. A mão antecipara-se à celebração da cópula. Havia lançado o sémen ao chão com levar a mão às partes pudendas.


    Embora fosse preciso aguardar, parecia mais fácil, no tempo de Diógenes, encontrar mulheres que homens.

terça-feira, 8 de novembro de 2011


                           AMATO LUSITANO

              ROMA E LISBOA



Na cura XIII da Terceira Centúria, João Rodrigues estabelece comparações entre Roma e Lisboa e refere-se à capital do reino português de forma elogiosa. O judeu de Castelo Branco deixa transparecer as saudades da Pátria.


Lisboa tem cerca de quarenta graus de elevação polar e Roma quarenta e um. Lisboa é a cidade mais ocidental de toda a Hispânia e a mais ilustre de toda essa zona ocidental, na opinião de todos. Fica assente num terreno plano, e as suas praças são banhadas pelo Mar Oceano em que desagua o Tejo aurífero. Não é dominada por ventos de montes nevados nem corrompida por florestas temerosas ou pântanos infetos, nem por águas estagnadas, lagoas, fossos ou cavernas donde é costume levantarem-se cheiros pestilentos que quase sempre infetam as cidades, como acontece com várias urbes da Itália e da Grécia. Pelo contrário, tem nos arredores campos férteis, jardins agradabilíssimos, fontes de água límpida, ribeiros cristalinos, vinhas aprazíveis, pomares abundantíssimos. De tudo isto resultam ares salubérrimos, mantendo a melhor temperatura nas quatro estações do ano, uma vez que no pino do verão o calor não é insuportável a ponto de sufocar as pessoas, nem o frio do inverno é tão rigoroso que os obrigue a refugiarem-se junto ao lume. É raro ver-se em Lisboa a geada ou a neve, sendo por isso que em pleno inverno até usam vestuário muito simples, sem precisarem de se defender com peles. A cidade é bafejada, em grande parte, por uma brisa muito suave, provinda do oceano, propiciadora de tudo, como querem Hesíodo e Homero.
Roma também possui tudo o que foi dado a Lisboa mas fica a Oriente e está mais voltada ao Sul que ao Norte. Por isso a sua temperatura é superior em calidez e humidade e portanto, como disse Galeno, sujeita a destilações. É atravessada pelo rio Tibre, chamado outrora Abbula que desagua no mar, não muito longe, de modo a partilhar com razão a mesma temperatura que tem Lisboa. Daqui vem que os romanos são fisicamente semelhantes aos lisboetas e outros portugueses, a ponto de até serem iguais na duração de vida, como esclareceremos um pouco mais adiante.


Que bom seria viver em Lisboa sem engarrafamentos de trânsito e sem poluição! Pena seria a falta de esgotos e de água e a lama nos caminhos…

Referências:
Amato Lusitano, Centúrias de Curas Medicinais. Centro Editor Livreiro da Ordem dos Médicos, Lisboa, 2010.
Gravuras
Lisboa antiga - Internet

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


                            PAI E FILHO

O senhor Filipe (o nome verdadeiro é outro) teria cerca de 25 anos quando foi internado no Serviço de Neurocirurgia do Hospital dos Capuchos. Vinha da Urgência de S. José, onde fora admitido na véspera por hematoma intracerebral espontâneo.



A anamnese não forneceu dados relevantes e a angiografia não mostrou sinais de anomalia vascular.
Os hematomas temporais têm má fama. Quando o efeito de massa aumenta, leva ao encravamento rápido do uncus e ao coma muitas vezes irreversível. Este era do lado direito e não se acompanhava de alterações do estado de consciência nem de défices neurológicos aparentes. Resolvi intervir e conversei com o doente para obter o seu consentimento. Olhou-me com olhos de carneiro que vai para a degola, mas aceitou a operação.
A cirurgia foi simples e a recuperação rápida. Os exames neurorradiológicos de controlo foram normais. Aos sete dias, dei-lhe alta e passei a segui-lo em consulta externa.
Apesar de casado, vinha sempre acompanhado pela mãe, com quem tinha uma ligação muito forte. Os testes neuropsicológicos detetaram um compromisso da memória recente que, a perdurar, iria comprometer a sua atualização profissional. Estava deprimido e teve de ser medicado nesse sentido.
Apenas na segunda consulta entendi a razão de ser da sua falta de esperança. O homem estava à espera da morte e não acreditava nas minhas palavras quanto ao prognóstico. Achava que eu mentia para o não assustar. Lá me revelou um facto que ocultara na anamnese de entrada: o pai fora operado por mim de glioblastoma cerebral anos antes e falecera em menos de um ano. Contava ter o mesmo destino.
Passou muito tempo, mas ainda aparece na minha consulta de vez em quando. Nunca perdeu o olhar triste.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011


   O MEU TEMPO DE ESTUDANTE

     Eu tinha boa cabeça e pude ser o melhor aluno do meu Liceu sem me esforçar por aí além. Era minimamente responsável e sentia a necessidade de estudar mais e melhor. Tardei, contudo, a concretizar esses objetivos. A verdade é que eu queria ser “marrão” e nunca fui capaz de o conseguir.
     Há alguns anos, a minha filha mais velha, médica também, esteve alguns meses com a AMI em S. Tomé. De volta, contava que os naturais da terra eram preguiçosos e explicava por quê: quase nem era preciso sairem do carreiro para estenderem a mão e colherem bananas de um cacho; entravam na água, lançavam a rede mesmo ali ao pé e obtinham uma refeição para a família. Provavelmente, quem precisa apenas de molhar os tornozelos ou os joelhos para conseguir uma boa pescaria nunca se fará grande navegador.
     Eu fixava objetivos e, de modo geral, cumpria-os, ainda que adiasse habitualmente para Outubro os exames mais difíceis.  
   Como outros cábulas, aprendi cedo o que era indispensável para passar de ano. Na Anatomia Descritiva, por exemplo, quem se contentava em chegar aos treze ou catorze valores escusava de estudar o aparelho urogenital. Eu até estava a fazer um bom exame quando o velho professor Maximino me mandou descrever a loca prostática. Nunca tinha ouvido falar de tal coisa. O meu “ Ãn?” foi tão espontâneo e sentido que a assistência desatou a rir. Saí de lá com treze.
     No ano seguinte, estudava, por vezes, num café com um colega que hoje é Professor Catedrático. Quando fomos a provas, eu obtive um treze e ele um catorze. Não ficou satisfeito e declarou:
     − Entre o meu catorze e o teu treze há um abismo de sabedoria!
     Haveria...
     Julgo que em todo o lado há pessoas que ganham tanto como as outras mas que fazem mais e melhor. O prestígio da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra assentava na qualidade de meia dúzia de professores. Renato Trincão, o “Trinquinhas” era um deles. Ensinava Anatomia Patológica.
   Eu tinha boa memória visual e engracei com o microscópio. No exame prático, o Trinquinhas entusiasmou-se com a minha prova e fez-me elogios rasgados. Não me deslumbrei. Sabia o que me esperava. Tinha um conhecimento razoável dos dois primeiros volumes da sebenta. O terceiro estava reservado a quem ambicionava mais de quinze valores. O meu ficou por abrir. Poucos dias depois, lá veio a prova oral. O professor Renato Trincão julgava ter acabado de descobrir um grande aluno e interrogou-me apenas sobre a matéria que constava do terceiro volume. Para desconsolo do Mestre, não fui capaz de responder a qualquer pergunta. Ainda assim, deu-me quinze valores.


     Um rapaz cresce e faz-se homem. Uns amadurecem mais cedo e outros mais tarde. Nas duas semanas que se seguiram ao exame de Patologia Médica, no quinto ano, continuei a estudar durante um par de semanas, estando já em férias. Tinha finalmente dado conta de que o saber era imprescindível. Um ou dois anos mais e teria os doentes à porta do consultório. Ai de mim, se não fosse capaz de os tratar!
     Acabei o curso com média de quinze valores, o que me classificava entre os quinze ou vinte melhores de um curso de cerca de cem. Soube-me a pouco, mas a verdade é que eu não merecia mais.
     Com o tempo, lá fui ganhando hábitos de trabalho e de estudo organizado. Mesmo assim, não me livrei, até hoje, de um pesadelo que se vai repetindo, com pequenas variações: o exame é daqui a dias e eu não comecei a estudar. Muitas das vezes, ainda nem sequer comprei a sebenta... 

terça-feira, 18 de outubro de 2011


                



     HUMOR EM AMATO LUSITANO

Amato Lusitano cita frequentemente os antigos e segue os seus ensinamentos. O que o faz grande é o cuidado que põe na anamnese e na observação dos doentes e o esforço constante para compreender as doenças que combate.
Trata-se de um médico com sentido de humor. Vejamos a pequena história que se segue à CURA LXXXI da segunda Centúria.

Como em certa ocasião uma senhora nobre pretendesse capar uns galos, preparou os testículos com mel e substâncias aromáticas de modo a obter uma excelente refeição para o marido.
Ao jantar, este comeu o manjar e saltou-lhe um tal priapismo que a esposa, após demorado coito, começou a sentir-se cansada e não podendo já suportar o trabalho, fugiu do quarto comum.
O marido, porém, furioso da matéria ainda pruriente correu atrás da mulher e, não podendo alcançá-la, visto se ter fechado num outro quarto, encaminhou-se ao das três ou quatro criadas e obteve com cada uma delas satisfação cabal. De manhã cedo, chamado o médico (pois o humor continuava titilando) o caso foi levado para o gracejo. Após ter bebido semente de anho casto, com cânfora, e feito um linimento de choupo sobre os rins, ficou livre do furor e da irritação venérea.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011


AMATO LUSITANO – RELATO DE UMA TREPANAÇÃO

Já falei aqui de João Rodrigues, ilustre médico português de fé judaica.  Nasceu em Castelo Branco em 1511. Perseguido pela “Santa” Inquisição, deixou a Pátria e exerceu a profissão em diversas cidades europeias. Morreu em Salónica, em 1568. Ficaria conhecido na História da Medicina com o nome de Amato Lusitano.
Firmino Crespo traduziu as Centúrias para português (julgo que do latim original) e escreveu o prólogo da edição. Eis um excerto da sua introdução:

Se elementos da farmacologia, então usados seriamente, hoje nos podem despertar sorrisos, pela ingenuidade deles, é obrigatório não nos esquecermos da distância do tempo. Certamente que também alguns processos clínicos ou drogas medicinais hoje em voga poderão espantar ou fazer sorrir os cientistas e médicos de anos vindouros.


Primeira centúria – Cura IV

Um militar que era soldado do imperador, em Caieta, de idade viril, robusto, forte, de natureza melancólica, era atormentado por uma tão grande dor de cabeça que parecia que os olhos lhe saltavam fora. Depois de ter consultado médicos de Nápoles e de Roma, cuja ação e conselho de nada lhe aproveitaram, veio até Ferrara, já passado um ano desse que vinha a ser atormentado por tal dor.

Depois de diagnosticar uma "sarna gálica" e de lhe administrar os medicamentos que julgou apropriados, o doente não melhorou.

O militar já estava aborrecidíssimo deste trabalho e cansado duma doença tão cruel, e de tomar tantos medicamentos que nada tinham feito. Por minha parte, matutando sempre no remédio para doença tão atroz, subitamente penso que só alcançaria a saúde ou a cura se lhe fosse aberta a cabeça. De facto, era minha convicção de que se corrompera o cérebro, donde nasciam as dores tão horríveis e cruéis. Estas dores provinham profundamente, do sínciput, abrangendo principalmente os olhos e a região deles.
Mandado logo vir um cirurgião e rapado o cabelo por meio de uma navalha de barba, mando-lhe abrir a cabeça, precisamente no sítio em que a dor se apresentava maior. O corte era grande, penetrando até ao crânio e feito por duas linhas que se cruzavam reciprocamente ao meio. No dia seguinte, mando que perfurem com a primeira e segunda lâminas da navalha até à meninge dura. Com esta operação, começou a dor a abrandar. Passados dias, mando excisar alguns ossos do mesmo crânio. Tirados eles, o militar começou a sentir-se melhor, a ponto de ser de novo restituído à saúde com a ingestão dum cozimento de guaiaco. Curamos também a perfuração ou secção do crânio como quaisquer outras chagas.

Esta centúria merece-me dois comentários. Em primeiro lugar, pouco parece ter evoluído a Medicina do período neolítico até ao século XVI, no que respeita às indicações terapêuticas das trepanações, se pusermos de lado as intenções mágicas. Por outro lado, é bem claro o papel dominante do físico frente ao cirurgião, que se limita a cumprir ordens. Os nossos antepassados médicos eram uns senhores. Até sabiam latim… Os nossos antepassados cirurgiões nasceram na classe dos barbeiros. Julgo conhecer tentativas de impor essa relação de trabalho, no século passado, em especialidades cirúrgicas emergentes.


Referências:
Centúrias de Curas Medicinais. Amato Lusitano. Tradução portuguesa. Centro editor livreiro da Ordem dos Médicos, Lisboa, 2010.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011



                        CIRURGIA PROTELADA


Por volta de 1983, 1984, a cirurgia dos aneurismas ainda tinha má reputação. Na minha equipa, apenas eu e o Carlos Maurício a executávamos com alguma regularidade.
Quem vem de longe chega mais cedo. Não é um provérbio chinês, mas poderia ser. Como sempre morei em Setúbal, era habitualmente dos primeiros médicos a entrar no Serviço. As anestesistas sabiam que eu não me atrasava e iam adiantando o trabalho.
Certa manhã, ao entrar na autoestrada, o meu carro foi abalroado por outro automóvel e capotou. Percebi que tinha passado para a faixa de rodagem de sentido contrário e receei um novo choque. Lembro perfeitamente ter estado à espera que a luz se apagasse.
A luz não se apagou e não me doía nada. Apalpei-me e achei que estava inteiro. O carro tombara de lado. Desapertei o cinto de segurança, abri a porta da direita, subi e saltei para o chão.
Juntou-se rapidamente à minha volta um pequeno grupo de pessoas. Uma viatura da GNR passou por ali e parou. O militar que conduzia conhecia-me. Comentou, ao ver-me bem disposto:
− O Senhor Doutor é corajoso!
Ri-me. A coragem não era chamada para ali. Eu estava satisfeito por continuar vivo e íntegro.
O condutor do automóvel que provocara o acidente era muito simpático. Responsabilizou-se e fartou-se de pedir desculpa.
Nesse tempo, ainda não havia telemóveis. Só depois de ver rebocar o meu carro (que foi direitinho para a sucata) é que me lembrei de falar para o Bloco Operatório a dizer que não tinha possibilidades de chegar aos Capuchos a tempo de operar. Passava muito das dez horas da manhã.
O Maurício, que não conhecia o doente, não quis meter a foice em seara alheia. O Senhor Manuel foi acordado. Não foi fácil convencê-lo de que não tinha sido operado. Pediu um prazo para recuperar da ansiedade, antes de voltar ao Bloco.
Operei-o, semanas depois. Tudo correu bem. Até morrer, de outra doença qualquer, o Senhor Manuel visitou-me com regularidade. Pedia a minha opinião sobre cada passo da sua vida. Lembro-me de se ter vindo aconselhar acerca do casamento da filha.
Se viajarem para os lados de Setúbal e virem um velhote de chapéu a conduzir uma Diane branca fujam, pois o homem, ou o fantasma dele, apesar de ser muito simpático é um perigo a conduzir.


A imagem é do clássico livro de técnica operatória de Ludwig Kemp

sexta-feira, 30 de setembro de 2011





NEURORRADIOLOGIA HÁ MEIO SÉCULO
    NO HOSPITAL DOS CAPUCHOS, EM LISBOA


    Em 1957, terminadas as obras no Hospital de Santo António dos Capuchos,  o Serviço de Neurocirurgia regressou do Hospital de Santa Marta,  onde funcionara durante cerca de ano e meio. A Neurorradiologia dispunha agora de instalações próprias, com seriógrafo e duas mesas basculantes e desenvolveu uma actividade intensa com aceitável qualidade técnica.



   Na angiografia, os vasos são injectados com um produto de contraste positivo. Nesta imagem anteroposterior, arterial tardia, a artéria cerebral anterior, que se devia encontrar na linha média está desviada vários centímetros para o lado esquerdo, enquanto o grupo sílvico é empurrado para o lado oposto por uma massa que condiciona importante herniação cerebral sob a foice. Na linha média, alimentado por um ramo da cerebral anterior, parece encontrar-se um nicho de neovascularização. Seria precisas imagens noutros tempos angiográficos e também em perfil para fazer um diagnóstico preciso do que parece ser um grande tumor frontal.





Na ventriculografia gasosa, o ar serve de contraste negativo e permite visualizar os ventrículos. Os desvios da morfologia ventricular normal indicam a presença de massas intracranianas.


O doente sabe que está a ser fotografado e esforça-se por se mostrar valente, esboçando mesmo um sorriso. O médico puncionou directamente a carótida no pescoço, enquanto o ajudante se prepara para injectar o produto de contraste. 

Nota: Este artigo está preparado há uma semana. Fui ontem informado que o Serviço 12 do Hospital dos Capuchos, o primeiro Serviço autónomo de Neurocirurgia da Península Ibérica, encerra hoje definitivamente as suas portas. Convidaram-me por telefone para um jantar que vai reunir alguns dos seus antigos e novos colaboradores. Não vou. Sinto-me sem disposição para assistir a funerais.

domingo, 25 de setembro de 2011


      ANTÓNIO VASCONCELOS MARQUES

            E ÁLVARO PAIS DE ATHAYDE

             UMA SIMBIOSE NEUROCIRÚRGIA


Conheci os doutores Vasconcelos Marques e Álvaro Ataíde em 1973, quando entrei para o Internato da Especialidade de Neurocirurgia, nos Hospitais Civis de Lisboa. Gostaram de mim, e eu deles. Depois de os ter ajudado algumas vezes no Serviço 10 do Hospital de S. José, convidaram-me para colaborar numas tantas intervenções particulares no Hospital da Cruz Vermelha.
O dinheiro extra dava-me bom jeito, pois tinha já duas filhas. A colaboração foi interrompida por um protesto. O interno que pertencia oficialmente à equipa deles sentiu-se discriminado. Teria razão.
António Vasconcelos Marques licenciou-se em Medicina, em Lisboa, em 1933 (juntamente com Álvaro Ataíde). Iniciou a sua atividade hospitalar sob a orientação de Pulido Valente e seguiu uma carreira hospitalar brilhante. Em 1936 concorreu aos Hospitais Civis de Lisboa e em 1940 terminou o internato de Cirurgia Geral. Foi chamado por Diogo Furtado, fundador do Serviço de Neurologia do Hospital dos Capuchos, para lançar as bases de uma valência neurocirúrgica. Em 1943, estagiou, durante cerca de um ano, no “John Hopkins Hospital”, sob a supervisão de Walter Dandy. De regresso, muitas vezes em conflito com Diogo Furtado, bateu-se pela autonomização da Neurocirurgia. Em 1954 prestou provas públicas e tornou-se o primeiro neurocirurgião das Carreiras Hospitalares da Península Ibérica. 
Vasconcelos Marques foi o impulsionador da criação do Serviço de Neurocirurgia do Hospital dos Capuchos e do Pavilhão de Traumatizados Cranianos do Hospital de S. José. Conheceu apreciável reconhecimento internacional. Era senhor de uma personalidade forte e, ao longo da vida, foi fazendo amigos e inimigos. Poucos que o conheceram lhe terão ficado indiferentes.
Recordo o doutor Ataíde como um cirurgião de mão cheia e um homem culto e gentil. Formava com António Marques uma dupla estranha e aparentemente incompatível que, no entanto, funcionava. Tinham sido colegas no Curso de Medicina. Diz-se que, na juventude, varriam bares a murro, prontificando-se, no final das cenas de pancadaria a pagar os estragos produzidos.
Álvaro Ataíde vinha de uma família fidalga dos Açores. Vasconcelos Marques era sobrinho-neto de Brito Camacho, uma das figuras gradas da I República.
Era o doutor Ataíde quem começava as operações. Terá sido assim na cirurgia do hematoma subdural de Oliveira Salazar. O doutor Marques era um homem ocupado com a direção do Serviço. Aparecia na fase “nobre” das intervenções. Coloquei as aspas porque, para mim, todas as fases cirúrgicas têm a mesma nobreza. Discutiam que se fartavam. Depois, o doutor António Marques lá punha o clip no aneurisma, se era caso disso, e deixava-nos a terminar o trabalho.
Tratando-se de duas pessoas inteligentes e com destreza manual acima da média, diferenciavam claramente as funções de cada um. Marques era o organizador e o homem que assumia publicamente a responsabilidade da equipa. Ataíde contribuía com a sua excecional habilidade de mãos e o seu bom juízo cirúrgico. Por mais que ralhassem um com o outro durante a cirurgia, quando tiravam as luvas e as batas relacionavam-se como se nada menos agradável se tivesse passado.
O doutor Álvaro Ataíde, um dos cirurgiões mais hábeis com quem trabalhei, seguiu um percurso profissional pouco comum. Fez Clínica Geral nos Açores, interessou-se pela Radiologia, e acabou por se tornar um dos neurocirurgiões mais brilhantes do País. Introduziu em Portugal a Cirurgia Estereotáxica da doença de Parkinson. Realizaram-se no nosso Serviço cerca de 180 dessas operações, algumas delas com recurso a uma adaptação feita por Ataíde aos aparelhos clássicos.
Álvaro Ataíde era um homem humilde, de bom trato e sorriso fácil, disposto a tolerar os erros e as limitações dos jovens neurocirurgiões que ajudava a formar. Fiquei surpreendido ao saber, pouco antes da sua morte, que chegara a ser Grão-Mestre da Maçonaria. Lembro-me de o ter visto enxugar uma lágrima, ao visitar a sala onde fazíamos neurorradiologia no Serviço 10, após a sua aposentação.


A 6 de Setembro de 1968, Oliveira Salazar foi internado no Hospital de S. José. O diagnóstico foi discutido. Poderia tratar-se de acidente vascular cerebral ou de hematoma intracraniano. Não existia, ao tempo, TAC nem Ressonância Nuclear e a idade do doente contraindicava a realização de angiografia cerebral. Horas depois, foi transferido para o Hospital da Cruz Vermelha e operado. Semanas antes, a 3 de Agosto, sofrera uma pequena queda. Segundo Fernando Dacosta, que cita a governanta Maria de Jesus, Salazar, ao sentar-se, de jornal na mão, calculou mal a distância e tombou ao lado da cadeira de lona, num terraço do Forte de Santo António. Bateu com a cabeça nas lajes do chão. Alguns dias depois, ficou confuso mas apenas a 4 de Setembro admitiu estar realmente doente.
A operação decorreu na Cruz Vermelha, onde Vasconcelos Marques realizava as suas intervenções cirúrgicas particulares. O hospital estava bem apetrechado e dispunha de boas instalações hoteleiras. Maria Cristina da Câmara, a anestesista habitual da equipa, vigiou o doente durante a operação, executada sob anestesia local. O doente colaborou e a cirurgia foi simples e rápida. Encontrou-se e drenou-se um hematoma subdural crónico.
Salazar fez uma boa recuperação imediata. Aos 8 dias da intervenção, porém, sofreu um acidente vascular cerebral. Ainda melhorou, mas perdeu a memória recente e ficou com défices motores importantes.


Vasconcelos Marques bebia com moderação. Ainda assim, no final dos almoços, chegava a soltar a língua. Lembro-me de o ouvir repetir:
Se o Doutor Salazar tivesse feito o acidente vascular no lado a que foi operado, o neurocirurgião tinha sido crucificado. Mal por mal, foi do lado oposto…


Fontes: A Neurocirurgia em Portugal, Serafim Paranhos, S.P.N.,Porto, 2000.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


        A CEGUEIRA DE CAMILO

     Camilo Castelo Branco sofreu de neuro-sífilis. Para além de problemas locomotores e de diplopia, desenvolveu  atrofia óptica  bilateral que o acabaria por levar à cegueira e ao suicídio. Foi observado por alguns dos melhores oftalmologistas do seu tempo, como Manuel Lopes Santiago, Augusto Sebastião Guerra, Pedro Adriano Van Der Laan, Gama Pinto e outros.
     Terá sido o próprio sofrimento que o inclinou a escrever sobre um cego (O cego de Landim, em Novelas do Minho) e sobre um oftalmologista (O olho de vidro, romance baseado na vida do médico setecentista Brás Luís de Lima, autor de Portugal Médico).
     Existem diversas obras sobre a cegueira de Camilo. Camilo e os médicos, de Maximiano Lemos, e A cegueira de Camilo, de Gomes Costa Filho, serão as mais conhecidas. No entanto, o próprio escritor foi registando por escrito a evolução da sua doença.



    O mal de olhos de Camilo Castelo Branco manifestou-se em 1865, ou mesmo antes. 
     Em 28 de Abril de 1866, Camilo confessou, em carta a José Barbosa e Silva:
        Foi muito grave o prognóstico da minha doença de olhos; mas hoje está averiguado que é efeito de venéreo inveterado. Sofro há 4 meses uma diplopia (visão dupla). É horrível para quem não tem outra distracção além da leitura. Tarde será o meu restabelecimento.

    Em 6 de Junho de 1878, escreveu ao visconde de Ouguela:
     Tenho de volta de mim catorze luzes para ver o que escrevo. Desde que o Sol se esconde estou cego. O pior é que escrevo com um dos olhos fechados para não ver tudo em duplicado.

      Apontou, a 7 de Fevereiro de 1886:
     Os jornais tratam da minha saúde fantasiosamente, como os médicos. A minha enfermidade, ataxia locomotora, não é das que retrocedem, nem sequer estacionam. Hoje ainda me sustento de pé, com dificuldade; amanhã não poderei falar das pernas senão como retórica e luxo de anatomia. A visão segue as perturbações medulares. Tenho cegueiras completas quando passo de um quarto luminoso para outro mal alumiado. O que eu vejo bem é a morte a aproximar-se, e saúdo-a risonhamente, porque a vida do meu filho Jorge também está por pouco.

     Voltou a queixar-se, a 22 de Novembro de 1886:
      Os incuráveis padecimentos que se vão ampliando todos os dias levam-me ao suicídio – único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira a insânia de meu filho Jorge e a segunda os desatinos de meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações da família. A mãe destes dois desgraçados não promete longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existência até ver Ana Plácido morta, infalivelmente me suicidaria.

     Escreveu, a 13 de Março de 1988:
   Aqui esteve quatro horas o Dr. Gama Pinto, uma cara inteligentíssima revelando um excelente coração. Conheceu rapidamente o meu deplorável estado, e fez-me um bom discurso para me dar paciência e resignação com a cegueira.
     Caíram todos os meus castelos no ar quando o médico, em vez de combater a minha cegueira, tratou de me armar de paciência para tolerá-la. Fez-se na minha alma uma noite escura, que nunca mais terá aurora.

     Lamentou-se, a 22 de Junho de 1888:
     Cada dia, pior. A agudeza da vista central, que ainda tinha em Lisboa, desapareceu. Suspendi tudo que era remédio. Endoideço, porque vou cegar inteiramente.

     A 27 de Novembro de 1888, começava a desesperar:
     Não dou um passo sem que me conduzam, não conheço ninguém, apenas distingo vultos ao aproximarem-se.

     Ainda escreveu, a 29 de Agosto de 1889:
     Atormentam-me os frenesins tabéticos que me não deixam sossegar de noite, e muito pouco de dia. Minha mulher acompanha-me neste calvário e verga ao peso da cruz enorme.

     A 21 de Maio de 1890, Camilo escreve ao oftalmologista Edmundo de Magalhães Machado, de Aveiro, rogando-lhe que o salve da cegueira. O médico desloca-se a Seide a 1 de Junho. Reconhecendo nada ser capaz de fazer pela visão do escritor, diz palavras de circunstância. Enquanto Ana Plácido acompanhava o médico à porta, Camilo suicidou-se, disparando um tiro de revólver na cabeça.


Referências: além do meu livro Eu, Camilo, este artigo apoiou-se em Camilo Castelo Branco – Memórias fotobiográficas, de Viale Moutinho, e no Dicionário de Camilo Castelo Branco, de Alexandre Cabral.

Etiquetas: Camilo Castelo Branco, História da Medicina.


terça-feira, 13 de setembro de 2011


       A DESTRUIÇÃO DO MEU ARQUIVO


No dia em que comecei a destruir o meu arquivo clínico só não chorei porque não sou dado ao choro.
De modo geral, sou impulsivo. Fora da área profissional, acusam-me de tomar decisões em cima do joelho. Quando se trata de questões que têm a ver com o meu futuro e o dos meus, é como se mudasse de feitio. Fico ansioso e torno-me hesitante. Ponderei demoradamente se deveria ou não abandonar o consultório de Setúbal para exercer os últimos anos de carreira no Hospital dos Capuchos em regime de dedicação exclusiva. A intenção era conseguir uma reforma melhor. 
Depois de escolher um rumo, sou teimoso e marro a direito.
Entre a minha candidatura ao novo regime e a sua aprovação decorreram poucas semanas. Lembro-me de ouvir a minha mulher comentar:
− Dizem-te que sim a tudo…
Era verdade. Sei de colegas que aguardaram anos pela resposta, que nem sempre foi positiva. Comentei, com algum orgulho:
− Conhecem-me. Sabem que vou trabalhar mais...
Não tinha onde colocar os armários metálicos em que guardava as fichas clínicas. Ocupavam uns bons metros quadrados de parede.
Era difícil contar as fichas que fui preenchendo ao longo de trinta anos de consulta. Umas eram gordas, com páginas dobradas, e outras elegantes. Fiz uma amostragem e extrapolei-a. Contadas duas gavetas, teria registos de 15.000 a 20.000 doentes.
A maioria deles não deixara marca na minha memória. Tratava-se de pessoas que tinham vindo pedir uma opinião e que não voltaram. Um ou outro paciente não teria gostado do médico. Muitos, contudo, tinham afundado raízes no meu coração. Alguns exigiram o melhor de mim: atenção, inteligência, capacidade de estudo e técnica cirúrgica apurada. Ofereci-lhes tudo o que fui capaz de dar. Nem sempre chegou. Umas vezes ganhei e, outras, perdi. Os homens orgulhosos fixam melhor as derrotas do que as vitórias.
As fichas eram muitas e difíceis de destruir. Provavelmente, no começo do século, os fragmentadores de papel teriam já custos acessíveis. Imaginei-os distantes, para utilização única. Fiz mal. Teria poupado tempo e maçada.
Doeram-me os pulsos de tanta ficha que rasguei em pedaços pequenos e quase deitei fogo à casa ao sobrecarregar a lareira com resmas de papel. Demorei muitos dias a completar a tarefa.
Mesmo sem querer, ia lendo um ou outro nome. Alguns não me diziam nada. Outros faziam parte das minhas preocupações. Houve doentes que julguei perder outra vez, ao destruir-lhes a memória escrita. Pensei que a melhor parte de mim ficava ali, junto às lembranças apagadas. Achei que estava a rasgar o meu passado e que nunca mais seria homem inteiro.
Imaginei-me numa ficha preenchida. Em cima, dizia: Dr. Trabulo. Estava quase cheia. O espaço em branco que ficava em baixo era estreito. Eu tinha percorrido a maior parte do caminho e era impossível lembrá-lo sem doentes.
Perdi registos e até apontamentos de frases de que poderia vir a fazer uso mais tarde, na escrita, mas a vida não parou. 
Hoje, o meu registo clínico pode abrigar-se todo numa “pen”. Cabem lá mais de seis metros quadrados de folhas de papel metidas em gavetas metálicas.

domingo, 4 de setembro de 2011

CURSOS EUROPEUS DE NEUROCIRURGIA

Nos primeiros anos da década de 70, um grupo de ilustres neurocirurgiões europeus agrupados na E.A.N.S. (Associação Europeia de Sociedades Neurocirúrgicas) animou um projecto de ensino pós-graduado que ajudaria a alargar as relações internacionais no âmbito da Especialidade. O primeiro Curso da E.A.N.S. efectuou-se em Bruxelas, em 1974.
A iniciativa não se limitava ao velho continente. Participaram, logo de início, neurocirurgiões em formação provenientes de alguns países do Magrebe e, pouco tempo depois, também de Israel. Recorde-se que, em 1974, a União Europeia se chamava Comunidade Económica Europeia e contava apenas com nove países membros. Destes, o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca tinham aderido no ano anterior. Pretendia-se, a nível científico, preceder o alargamento político no espaço europeu. A Neurocirurgia deu o contributo que estava ao seu alcance e impulsionou a modernização da Especialidade em diversos países periféricos, como o nosso. Ainda no tempo da chamada “cortina de ferro”, em 1976, foi possível realizar o terceiro curso na cidade universitária húngara de Pecs. 
O francês Bernard Pertuiset, o inglês R. T. Johnson, o alemão Hans Pia e o belga Jean Brihaye constituíram o núcleo duro que impulsionou a iniciativa. 
O projecto foi pensado de forma realista. Assentou em cursos intensivos anuais com uma semana de duração. Para reduzir os custos, utilizaram-se as instalações universitárias onde os docentes trabalhavam. Os internos eram geralmente alojados em residências de estudantes, por altura das férias. O preço das inscrições era acessível.

Manchester, 1978. Reconhecem-se, na primeira fila, Brihaye, Johnson, Pertuiset, Pia e Isamat.

Com alguma heterogeneidade e um ou outro caso de flagrante improviso, as aulas eram bem preparadas. Contaram com a participação interessada e gratuita de muitos dos melhores neurocirurgiões europeus. Alguns deles aliavam ao saber excelente capacidade de comunicação. Os cursos perduram até hoje.
O meu primeiro Director de Serviço, António Vasconcelos Marques, conhecido por ter operado Oliveira Salazar, ficou para a História devido à criação, em Lisboa, de uma unidade pioneira de tratamento de traumatizados crânio-encefálicos. Dava-se melhor com a “alta roda” da Neurocirurgia mundial do que com alguns Colegas portugueses e foi orador em vários dos primeiros cursos.
Vasconcelos Marques, senhor de uma personalidade vincada, viveu a vida de uma forma muito pessoal. Começava a trabalhar depois do almoço e arrastava a sua actividade pela noite dentro. De manhã, que era quando, naquele tempo, os médicos portugueses se ocupavam nos hospitais públicos, dormia. Teve muitos amigos e inimigos. Pessoalmente, recordo-o com saudade.
Por influência dele, foram internos e jovens especialistas do Serviço de Neurocirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa que constituíram o primeiro grupo português a frequentar os cursos europeus da Especialidade.

                                           Bruxelas, 1974

As aulas começavam de manhã cedo, geralmente às 8.00 horas. Vasconcelos Marques era pontualíssimo. Dormia olimpicamente na primeira fila da assistência. Quando o orador se calava, abria os olhos e fazia uma pergunta pertinente. Vemo-lo nesta fotografia ao lado de Johnson e do nosso grupo inicial: eu, o Magro Jacinto, o Carlos Maurício e o Costa Oliveira, que já nos deixou. Falta aqui o Oliveira Antunes. Estará sentado lá para trás.
Anos mais tarde, quando o Maurício foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Neurocirurgia e me nomeou Coordenador da Comissão de Ensino, reunimos um grupo valioso de colaboradores e demos início aos cursos anuais da Sociedade Portuguesa de Neurocirurgia. Seguiram inicialmente o modelo europeu e atingiram um nível científico interessante. Começaram em 1996 e ainda continuam. Colaborei na organização dos quatro primeiros. O próximo (XV) realiza-se em Outubro, em Montargil.