Histórias da Medicina Portuguesa

No termo de uma vida de trabalho, todos temos histórias a contar. Vamos também aprendendo a ler a História de um modo pessoal. Este blogue pretende viver um pouco da minha experiência e muito dos nomes grandes que todos conhecemos. Nos pequenos textos que apresento, a investigação é superficial e as generalizações poderão ser todas discutidas. A ambição é limitada. Pretendo apenas entreter colegas despreocupados e (quem sabe?) despertar o interesse pela pesquisa mais aprofundada das questões que afloro.
Espero não estar a dar início a um projecto unipessoal. As portas de Histórias da Medicina estão abertas a todos os colegas que queiram colaborar com críticas, comentários ou artigos, venham eles da vivência de cada um ou das reflexões sobre as leituras que fizeram.

segunda-feira, 24 de abril de 2017



OS PRIMEIROS HOSPITAIS 

DE SETÚBAL




Hospital significava originalmente casa de hóspedes. De modo geral, ao longo da Idade Média, eram unidades de dimensões reduzidas que albergavam pobres, peregrinos e doentes e se situavam muitas vezes na vizinhança dos templos. Alguns eram geridos pela Igreja. Outros pertenciam a irmandades. Uns tantos resultavam da iniciativa de pessoas singulares. Eram sustentados pelos rendimentos de doações e heranças de fiéis que esperavam ser ressarcidos por Deus, no outro mundo.
Existiram, em Setúbal, diversas confrarias ou irmandades. As confrarias do Corpo Santo, de Santa Maria da Anunciada e do Espírito Santo possuíam estabelecimentos assistenciais que alojavam pobres.  
    Tanto o Hospital da Anunciada como o do Espírito Santo datam de 1372. Sabe-se pouco sobre o Hospital da Anunciada, que terá exercido importantes funções assistenciais. Por se situar fora de muralhas, escapou à integração na Misericórdia de Setúbal, levada a cabo em 1501.
O Hospital do Espírito Santo localizou-se inicialmente na Rua Direita do Troino e foi transferido, em 1494, ou antes, para a Praça do Pelourinho (julgo que seria a Praça da Ribeira). Na visitação pastoral de 1510 foi descrito como “uma casa sobradada, com quatro janelas de assento muito grandes e paredes muito boas de pedra e cal; a casa é toda forrada de castanho e tem duas portas com suas grades de ferro sobre o tavoleiro de entrada”. Dispunha de dez camas com roupa.
O Corpo Santo era uma associação de mareantes e pescadores. Possuía, pelo menos desde 1415, um hospital que tinha por missão recolher marinheiros e pescadores acidentados no mar. Em 1510, quando da visitação de D. Jorge a Setúbal, o Hospital do Corpo Santo possuía “seis camas e mais uma para doentes; e estava tudo muito limpo e concertado”.

                     Edifício do Antigo Hospital do Corpo Santo

Existiram outros estabelecimentos de assistência, dos quais chegaram até nós informações limitadas. Um dos mais antigos seria a Albergaria da Horta do Rio, que, segundo Manuel Maria Portela se situava extramuros, na estrada de S. João, perto da gafaria.


A gafaria de Nossa Senhora da Saúde data provavelmente do século XIII ou XIV. Resta dela uma pedra de padieira com um escudete e com uma inscrição legível: vanitas, vanitatum et omnia vanitas (vaidade das vaidades, tudo é vaidade). Já não funcionaria em 1504, pois nessa data a gafaria de S. Lázaro de Cacilhas tinha por função alojar todos os leprosos de Almada, Sesimbra, Setúbal, Azeitão e Palmela.

               Arcos do Hospital de João Palmeiro
O hospital de João Palmeiro já existia em 1363. Restam dele três arcos ogivais que confrontam com a Igreja de Nossas Senhora da Graça. O vocábulo “palmeiro” aplicava-se aos peregrinos. É de supor que o fundador fosse romeiro ou que o hospital se destinasse a apoiar os peregrinos. Diz-se que é a edificação mais antiga de Setúbal. No começo do século XX o espaço foi aproveitado para uma fundição e, mais tarde, para uma oficina de reparação de automóveis.
O hospital de Maria Pipa ou de Maria da Pipa situava-se na Praça do Sapal, próximo da igreja de S. Julião. Foi fundado no século XV, ou antes, por Catarina Martins, azeiteira, e dispunha de duas casas térreas, servindo uma de alojamento para a hospitaleira e a outra, com cinco camas, para os pobres.  Maria Pipa, que teria sido a sua quarta administradora, não fez grande trabalho. Foi exonerada das suas funções em 1472.


A ermida de S. Brás, que poderá ter estado relacionada com a peste de 1482, localizava-se, segundo Rodrigo Marques e Manuel Marques, no sopé da Fortaleza de S. Filipe. Ruiu em 1940. Existe, pelo menos, uma fotografia dela. Era num edifício encostado a essa capela que se fazia a quarentena dos tripulantes dos navios que se dirigiam ao porto de Setúbal quando o “intérprete de saúde” suspeitava que fossem portadores de doenças contagiosas.
Existiam ainda várias capelas que a carência de informação não permite ligar a tarefas assistenciais.
Será interessante descrever o ambiente de um hospital no final da Idade Média. Socorremo-nos para isso da descrição feita por Rodrigues Marques e Manuel Marques.

“A sala da enfermaria tinha as camas alinhadas ao longo das paredes e separadas por cortinados umas das outras. Era comum deitar dois doentes na mesma cama.
O doente era levado para o hospital numa liteira ou catre. Depois de lavado e de mudar de roupa e antes de ser instalado na enfermaria, era recebido pelo capelão.
O dia começava com a missa, celebrada no altar colocado na parede de fundo da sala. Corriam-se as cortinas, para que os doentes pudessem ver o celebrante.
Seguia-se a primeira refeição, servida em tigelas de pau. As colheres eram também de pau e os copos de barro. Não havia preocupação com dietas, pois interessava que os doentes se alimentassem bem.
Os tratamentos consistiam na aplicação de drogas de origem vegetal, preparadas na própria botica, ou adquiridas fora. Incluíam unguentos, cera, essência de terebintina e tisanas. Praticavam-se banhos e fumigações, cautérios, sangrias e clisteres e aplicavam-se “bichas” (sanguessugas).
As longas horas em que nada sucedia eram preenchidas por salmos cantados pelos frades ou freiras.
Os médicos, que só muito mais tarde começaram a prestar serviço permanente nos hospitais, iam lá apenas quando eram chamados”.

No final do século XV teve início, em Portugal, um processo de fusão e concentração dos inúmeros hospitais pequenos e dispersos. A Coroa procurava assumir o controlo dos estabelecimentos hospitalares administrados pela Igreja e pelas confrarias. Em 1479, mesmo antes de subir ao trono, D. João II obteve autorização papal para fundir os hospitais de Lisboa. Vinte anos mais tarde, a autorização alargou-se a todos os hospitais do Reino.
Cerca de 1489, foi criada a confraria da Misericórdia de Setúbal. Teria, no ano seguinte, o diploma régio de confirmação.
A 13 de setembro de 1501, o mordomo da irmandade do Espírito Santo recebeu do provedor régio dos estabelecimentos assistenciais do almoxarifado de Setúbal ordem para anexar todos os outros hospitais existentes na vila. A ordem foi cumprida, com duas exceções: o hospital de João Palmeiro continuou a ser governado pela confraria do Corpo Santo, pelo menos até 1511, e a confraria da Anunciada, situada fora de muros, prosseguiu as suas funções assistenciais até depois de 1567.  

BIBLIOGRAFIA
Drumond Braga, Paulo. Setúbal Medieval (séculos XIII a XV). Câmara Municipal de Setúbal, 1998.
Marques, Rodrigues e Marques, Manuel. Subsídios para a História dos Hospitais de Setúbal, 1984.

Quintas, Maria da Conceição (coordenadora). Monografia de S. Julião. Junta de Freguesia de S. Julião, Setúbal, 1993.

sábado, 22 de abril de 2017


HIPÓCRATES




Hipócrates seria um nome corrente, na Grécia de Péricles. Diz Fernando Namora: “conhecem-se sete médicos de nome Hipócrates; a tradição tê-los-á amalgamado num personagem único”. Há quem sugira que sucedeu o mesmo com Jesus Cristo.
Sabe-se alguma coisa sobre a sua vida. Nasceu por volta de 460 a. C., em Cós. Cós é uma ilha grega situada muito próximo da costa da Turquia. Era cerca de dez anos mais novo do que Sócrates e foi contemporâneo de Demócrito. Julga-se que viajou pela Grécia e pelo Próximo Oriente. É representado de chapéu e bordão, símbolos do caminheiro.


Hipócrates era um asclepíade, isto é, um descendente de uma família dedicada aos cuidados de saúde. Sua mãe teria sido uma parteira de sucesso.
O mestre grego exerceu medicina na Trácia, na Tessália e na ilha de Tasso. Era já um médico conhecido em 430 a.C., quando se realizou a 86ª Olimpíada. Faleceu em Larissa, numa idade avançada.
É considerado uma das figuras mais importantes da História da Medicina. Segundo Catiglione, o seu mérito assenta em ter demonstrado que a doença era um processo natural. Os sintomas traduziam reações do corpo à doença e o papel principal do médico consistia em ajudar as forças naturais do organismo no processo de recuperação.
      Hipócrates separou a Medicina da Magia. As divindades já não eram convocadas para tratar os enfermos. Nascia a profissão de médico, o qual devia observar, refletir e aprender. No seu modo de ver, muitas doenças eram influenciadas por fatores climáticos, dietéticos e ambientais.
      Embora o juramento hipocrático, tal como o conhecemos hoje, ponha em realce a figura do mestre, em outros escritos, Hipócrates menorizava a aprendizagem pelo ensino, pela transmissão da experiência de outros, o que reforça a opinião dos historiadores que consideram ter sido o “Juramento de Hipócrates” elaborado numa data posterior. Hipócrates escreveu nos seus aforismos que a vida dum médico era demasiado curta para ele aprender tudo de que necessitava para o exercício da sua profissão.
A reputação de Hipócrates deve-se às suas obras, que constituem o Corpus Hipocraticum. O tempo terá reunido, nesta coleção de 70 escritos, contributos do próprio Hipócrates e de vários outros médicos oriundos de épocas e de escolas diferentes. Além do famoso Juramento, dos Aforismos e da Doença Sagrada, os textos falam das doenças agudas, da cirurgia, das fraturas, dos instrumentos de redução, dos ferimentos da cabeça, das articulações, das úlceras, das fístulas, das hemorroidas, dos ares, águas e lugares, das epidemias e dos prognósticos.
Hipócrates apreciava a temperatura do corpo com a mão. Praticava a auscultação, encostando o ouvido ao peito do doente. Descreveu o ruído do roçar de coiro novo nas pleurisias. As obras que lhe são atribuídas englobam um conjunto de descrições clínicas que permitem identificar doenças como a malária, a papeira e a tuberculose. Aconselhava os médicos a serem comedidos nas explicações e nas expectativas a transmitir aios doentes.
Hipócrates desenvolveu o conceito de “crise”. Constituiria um ponto-chave da evolução da doença e determinaria a recuperação ou a morte.
O médico grego não poderia enxergar muito além da sua era. Fundamentou a sua compreensão do organismo humano na famosa teoria dos humores (sangue, fleugma ou pituíta, bílis amarela e bílis negra). O equilíbrio dos humores (eucrasia) determinaria o estado de saúde, enquanto o predomínio de um ou de outro, a discrasia, seria causa de doença e de dor. Esta teoria, retomada séculos mais tarde por Galeno, dominaria o ensino médico até ao século XVIII.


Em questões terapêuticas, o Mestre de Cós não inovou. Recorreu ao que existia na época para tratar os doentes: sangrias, ventosas, cataplasmas e pensos.
Para terminar, registo aqui algumas passagens do famoso Juramento de Hipócrates.
Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.
Conservarei imaculada minha vida e minha arte.
Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.
Aquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.


Bibliografia
Alzina, A. Hipócrates: filosofia e mistérios em Medicina grega. Nova Acrópole (Internet).
Barradas, Joaquim. A arte de sangrar de cirurgiões e barbeiros. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
Namora, F. Deuses e demónios da Medicina. Livraria Bertrand, Amadora, 1979.
Wikipedia.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


 O CONHECIMENTO CURA




Já falei, neste blogue, do Papiro de Ebers, de que chegou até nós uma cópia com 3.500 anos, escrito em hieróglifos simplificados. Os antigos egípcios elaboraram a primeira Farmacopeia da História Universal.
     Recorriam a produtos diversos para preparar os seus medicamentos. Contavam-se entre eles, além de variadas ervas medicinais, leite de mulher, sangue de lagarto, fezes animais e livros velhos fervidos. É caso para se dizer que o conhecimento cura.
     Não se trata de Medicina assente na evidência, uma vez que não há referência, nessa época, a estudos duplamente cegos com abrangência estatística significativa, mas a notícia fica, mesmo assim.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


      OS PRIMÓRDIOS DA ANESTESIA



Sou neurocirurgião e interesso-me por História da Medicina. Será fácil entender a minha curiosidade pela História da Anestesia. As publicações recentes de Figueiredo Lima suscitaram-me algumas reflexões breves.
Há cerca de ano e meio, falei neste blogue de Hua Tuo (ou Wá Tó), o "divino cirurgião", alegadamente o primeiro médico da China e do mundo a recorrer à anestesia. Julga-se que a sua fórmula anestésica, denominada “Mafei san”, associava aguardente de arroz a um preparado de ervas que, traduzido à letra, significava “pó de cannabis cozido”.
Tratou-se de uma personagem real que viveu no segundo século antes da era cristã. 
É venerado como uma divindade, nos templos taoistas. Quando davam com um médico extraordinário, diziam os chineses que era Hua Tuo reincarnado.
Hua Tuo terá sido o primeiro cirurgião a realizar uma intervenção cirúrgica sob anestesia, 1600 anos antes da introdução da anestesia nos Estados Unidos da América. Ajudado por esta técnica, terá realizado laparotomias e resseções intestinais. Poderá ter operado com sucesso uma apendicite aguda.
A lenda diz que foi executado, já em avançada idade, por volta de 207, por um nobre descontente com o seu pouco interesse em tratá-lo. Há também quem sugira que o poderoso Cao Cao, que se sentou num dos três tronos que resultaram do desmembramento do império Han, suspeitou de uma tentativa de assassinato quando Hua Tuo lhe sugeriu uma trepanação craniana para tratar as suas severas enxaquecas. Tanto quanto sei, é a primeira vez na História da Medicina que a trepanação aparece associada ao nome do cirurgião que a praticou. A operação foi aprovada por Hipócrates para o tratamento de feridas cranianas, mas não há indícios de que o médico de Cós a tenha praticado pessoalmente.
Os trabalhos do cirurgião chinês perderam-se. Da sua obra resta apenas um método de castração de patos. A tradição adicionou à sua obra uma série de pontos novos para acupuntura e a invenção de suturas, de unguentos anti-inflamatórios e de remédios para a ascaridíase.  
A anestesia demoraria muitos séculos a ser reinventada e a cirurgia chinesa regrediu consideravelmente.
Ao longo dos séculos, repetiram-se as tentativas para aliviar as dores durante os procedimentos cirúrgicos.
Caio Plínio Segundo, ou o Velho, que viveu entre cerca de 23 e 79 da era cristã, recomendou a utilização de Mandragora officinalis para analgesia de traumatismos e para cirurgias.
Lúcio Apuleyo (125-170), com nome latino mas originário da Argélia, aconselhou o uso da Mandrágora para provocar o sono e induzir analgesia suficiente para ser possível amputar um membro sem que o paciente sofresse dor.
Galeno utilizou o ópio como analgésico.
Os antigos médicos árabes recorriam a diversas plantas para reduzir a dor durante a cirurgia. Utilizavam o ópio, a beladona, a mandrágora, o beleno, a cicuta e o haxixe. As formas de administração eram duas: a ingestão de sementes da papoila-dormideira e a aplicação de “esponjas soporíficas”.
   Mais tarde, em Salerno e em Bolonha, a Scopolia carniolica foi utilizada em Medicina, também sob a forma de "esponja soporífica". 
    A partir de 1938, recorreu-se ao hipnotismo para combater a dor durante intervenções cirúrgicas.
    Foi preciso esperar até 1846 para que o dentista americano William Morton levasse a cabo a primeira anestesia com éter. 



Bibliografia
Figueiredo Lima, Joaquim. Plantas Medicinais e Medicina Convencional. Chiado Editora, Lisboa, 2016.
Subhuti Dharmananda, Ph.D., Director, Institute for Traditional Medicine, Portland, Oregon. Hua Tuo.(Internet).

Fotografia: autor.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016


CAMILO CASTELO BRANCO


ESTUDANTE DE MEDICINA
 


Anos atrás, escrevi duas biografias na primeira pessoa: “O Diário de Salazar” e “Eu, Camilo”. Em ambas, coloquei ao lado dos textos produzidos pelos personagens biografados os redigidos por mim. Se foi relativamente fácil imitar a escrita de Salazar, seguir o mesmo processo com Camilo representou algum descaramento e um esforço considerável de mimetismo.


É difícil falar em beleza na nossa literatura em prosa sem evocar Camilo Castelo Branco. Percebo que os escritores são todos datados, uns mais do que outros. Os problemas que afligem uma geração poderão parecer distantes e artificiais um século mais tarde. No entanto, há na escrita de Camilo um vigor, uma excelência no domínio da construção das frases que, até hoje e a meu ver, não foi ultrapassada na língua portuguesa.
    Camilo fez brilhar o romantismo em Portugal quando ele começava a envelhecer no centro da Europa. Os escritores românticos apreciavam os sentimentos fortes e carregados. O ciúme, a vingança e o desespero exigiam um estilo declamatório e frenético. Camilo emprestou-lhe o seu timbre pessoal. Os discursos dos seus personagens são elaborados e muitas vezes espetaculares. Camilo Castelo Branco chegou a ser considerado o maior romancista da Península Ibérica.
A vida do escritor começou mal e acabou pior. Filho ilegítimo de um nobre e de uma criada, nasceu em Lisboa. Órfão aos 10 anos, foi recebido em Vila Real de Trás-os-Montes por uma tia que se aproveitou da sua mocidade para lhe roubar o património.
Após as primeiras letras, apenas o padre António, cunhado de sua irmã Carolina, lhe ensinou rudimentos de francês e de cantochão. Os primeiros livros que leu pertenciam ao padre, cuja biblioteca era reduzida.
Camilo passou a adolescência em aldeias do Norte de Portugal. Aos 16 anos, já o tinham casado. O futuro escritor abandonou a mulher e a filha pequena. Ambas morreram cedo.
     O jovem Camilo resolveu fazer-se médico, como o cunhado Francisco José de Azevedo, irmão do padre António. Informou-se sobre as condições para a admissão na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Era necessária a aprovação em Gramática e Língua Francesa e, segundo se infere do "Dicionário" de Alexandre Cabral, em Filosofia Racional e Moral.

  Corpo sul do Hospital de Santo António, onde esteve instalada a Escola Médico-Cirúrgica

Camilo preparou-se, ninguém sabe bem como, dada a sua pouca escolaridade anterior. Prestou provas em outubro de 1843, no Liceu Nacional do Porto e foi aprovado. Três dias depois, matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica. O primeiro ano constava das cadeiras de Anatomia e Química. Como a Química podia ser frequentada noutro sítio, inscreveu-se na Academia Politécnica.

            Desenho da Academia Politécnica do Porto, no séc. XIX

Eu morava na Rua Escura, um beco fétido de coirama surrada, em uma esquina que olha para a viela de Pelames. Éramos dois os estudantes que ocupávamos o terceiro andar, com uma retorcida varanda de pau debruçada em ameaças sobre os transeuntes…

      No verão de 1844, concluiu o primeiro ano. Foi aprovado em Química e Anatomia. A 15 de outubro, matriculou-se no segundo ano da Escola Médica e na cadeira de Botânica da Academia Politécnica.

Fotografia do livro de exames da Escola Médico-Cirúrgica do Porto

Camilo entendeu cedo que não tinha vocação para médico. Perdeu o ano por faltas.

O certo é que eu, em 1845, há quase vinte anos, bem que nem sequer entressonhasse o céu e o inferno de escritor, já me empenhava de tecer enredos de romances, enquanto os meus lentes de química e botânica se desvelavam em me fazer crer que há ácidos e óxidos, e que há vegetais monocotiledóneos e vegetais andróginos: coisas de que eu sinceramente não duvido nem sei nada. (Em A filha do Doutor Negro).

     Mudou-se para Coimbra, com a intenção de estudar Direito. Em 1846, as aulas encerraram, devido à revolução que ficou conotada com o nome de Maria da Fonte. Camilo voltou a Vila Real.
     Em 1848, com 23 anos, foi para o Porto e começou a sua carreira de jornalista. Abandonou em Vila Real a namorada grávida.
     No Porto, levou uma vida atribulada. Após uma ligação sentimental com uma freira, chegou-lhe a vocação religiosa e inscreveu-se no Seminário do Porto. 
     O seminarista assistiu a poucas aulas. Graças à qualidade dos artigos que ia publicando nos jornais católicos, acabou por receber ordens menores. Passava muitas horas na Biblioteca de S. Lázaro. Estudou os clássicos portugueses antes de se virar para os autores europeus contemporâneos.
   Camilo Castelo Branco foi a primeira pessoa em Portugal a viver exclusivamente da escrita.


Bibliografia
Cabral, Alexandre. Dicionário de Camilo Castelo Branco. Editorial Caminho, Lisboa, 1988.
Viale Moutinho, José. Camilo Castelo Branco. Memórias fotobiográficas. Editorial Caminho, Lisboa, 2009.
    

quarta-feira, 9 de novembro de 2016


HOSPITAIS -BARRACA



A Anestesia propriamente dita não foi a única preocupação do historiador médico Joaquim Figueiredo Lima. Obviamente, a Anestesia não se desenvolveu de forma isolada e esteve ligada, desde o início, à Cirurgia, à Obstetrícia e, também, à Estomatologia. As condições em que os doentes eram anestesiados e operados e, por conseguinte, a assepsia, a antissepsia e a conceção das edificações hospitalares representam uma preocupação constante do autor, expressa num número significativo das páginas do seu livro.
Como foi dito anteriormente, o trabalho de Figueiredo Lima assenta nas Teses de Dissertação Inaugural de alunos finalistas das Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e do Porto, no final do sec. XIX e no início do sec. XX.
Em 1867, José Victorino de Sousa Albuquerque dissertou sobre as condições higiénicas do Hospital de Santo António do Porto, com relação às operações de grande cirurgia. Afirmou, a dada altura:
As bases sobre as quais devem assentar a forma dos hospitais encontram-se nas seguintes palavras de Trelat: «É preciso que tudo esteja disposto para a livre e abundante circulação de ar; que os ventos varram as superfícies de construção, que não encontrem nem ângulos nem partes reentrantes, e que o sol possa penetrar na totalidade das salas espaçosas e completamente separadas umas das outras, para não constituírem focos de infeção recíproca.
Albuquerque escreve, mais adiante, referindo-se à enfermaria: «A ventilação lá é impossível, porque, abertas as janelas que comunicam com a arcaria, o ar pode entrar, mas não tem por onde estabelecer corrente, por não haver em nenhuma das paredes opostas abertura para a sua saída. Em frente da entrada para esta enfermaria está o quarto chamado de operações, apenas separado daquela por uma pequena casa escura e imunda onde estão as latrinas, que muitas vezes lançam para a enfermaria um cheiro insuportável.
Mais à frente, José Albuquerque resume os resultados das más condições cirúrgicas: «Das amputações da coxa não nos consta que uma só tenha vingado, sendo tal o receio destes resultados que só se praticam tais operações quando a inevitabilidade da morte é reconhecida não se operando».
Dez anos mais tarde (em 1877) José Dias de Almeida Júnior, que viria a ser cirurgião, pediatra, Lente da Escola Médico-Cirúrgica e Diretor do Hospital de Santo António, volta a sublinhar a questão do arejamento e critica duramente as condições higiénicas do hospital: «Pelo que diz respeito ao sistema de despejos, nós já aludimos a ele em algumas partes; para provar as suas más condições basta dizer que, no centro de cada uma das novas enfermarias de mulheres, há uma latrina, onde a limpeza não pode ser bem mantida, porque lhe falta a grande abundância de água que seria necessária; que não há a desinfeção tão aconselhada hoje e que tão bons resultados tem dado».
No espaço de tempo mediado entre as teses de Sousa Albuquerque e de Almeida Júnior acontecera, nos Estados Unidos da América, a Guerra da Secessão. Tornara-se necessário tratar os feridos na proximidade dos campos de batalha. Para os abrigar, montavam-se, lado a lado, pequenas barracas de madeira. Verificaram-se reduções surpreendentes nas taxas de mortalidade e morbilidade, em comparação com registadas nos hospitais tradicionais.
Por indicação de Virchow, o projeto foi recuperado durante a guerra franco-prussiana (1870-1971) e os resultados voltaram a ser animadores. Em 1871, o Correio Médico de Lisboa propôs a construção de hospitais barracas para prevenir as infeções hospitalares. A ideia foi apresentada, no mesmo ano, à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa.
José de Almeida Júnior, na terceira parte da sua tese, defendeu a construção de hospitais barracas para a prática de cirurgia. Escreveu:
Os hospitais barracas fizeram a sua prova como hospitais de guerra; como hospitais civis a sua carreira não tem sido menos brilhante.
A separação, o espalhamento dos doentes é o único meio de evitar os efeitos perniciosas da acumulação.
Constituídos por pavilhões isolados, cada um com a sua atmosfera própria, suficientemente separados entre eles, colocam os doentes em ótimas condições. Podem-se multiplicar os pavilhões que se não altera significativamente a salubridade do conjunto.
A ideia da dispersão das construções hospitalares, compostas por diversos pavilhões em lugar duma construção monolítica vingou, durante algum tempo. O exemplo dessa conceção vê-se ainda hoje, em Lisboa, no Hospital que tem o nome de Curry Cabral e foi construído entre 1902 e 1904.

                          Hospital de Curry Cabral

Mais tarde, o progresso da engenharia de construção hospitalar iria permitir melhorar as condições de higiene dos edifícios e os grandes hospitais de Lisboa, Porto e Coimbra foram sendo inaugurados entre 1953 e 1987. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016



A HISTÓRIA DA ANESTESIA EM PORTUGAL


Joaquim Figueiredo Lima prestou um serviço inestimável à História da Anestesia em Portugal ao publicar, este ano, o primeiro trabalho sistematizado sobre o passado da sua Especialidade. 
Escolheu alicerçar o seu estudo na análise das Teses de Dissertação Inaugural que afloram temas de Anestesia e foram apresentadas por alunos finalistas das Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e do Porto, no final do século XIX e no início do século XX. Recolho aqui algumas ideias avulsas que poderão contribuir para motivar a leitura do livro.
O hipnotismo era utilizado para combater a dor durante as intervenções cirúrgicas desde 1838.
A primeira anestesia com éter foi efetuada em Boston, em 1846, pelo dentista William Morton. A palavra “anestesia” foi criada logo a seguir. O procedimento chegou à Europa ainda nesse mesmo ano, e o éter foi utilizado, em dezembro, em Londres, Edimburgo e Paris. A partir de então, a sua utilização em cirurgia generalizou-se no mundo inteiro.
Em Portugal e no Brasil, começaram a realizar-se anestesias gerais com éter na primeira metade de 1847. No mesmo ano, a sociedade de Ciências Médicas de Lisboa divulgou a nova técnica por todo o país.  
O clorofórmio foi aplicado pela primeira vez como anestésico, no Porto, numa parturiente, por José Sinval.
As tentativas de anestesia nem sempre foram bem-sucedidas, registando-se alguns falhanços. Surgiram reações contra a sua utilização, tendo sido utilizados mesmo argumentos de natureza religiosa.
Aos poucos, foram sendo conhecidos os primeiros efeitos secundários da técnica: bronquites, pneumonias e “inflamação do cérebro”. Surgiram também as primeiras mortes atribuídas à anestesia.
Em 1850, Narciso Sampaio apresentou, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, uma Tese de Dissertação Inaugural intitulada “Reflexão acerca das vantagens e inconvenientes que resultam da aplicação dos anestésicos nas operações cirúrgicas”. No mesmo ano, Lima e Bastos formulou um trabalho sobre a utilização do Método anestésico considerado em suas relações com a Arte dos Partos.
Foram sendo publicados numerosos estudos sobre as vantagens e inconvenientes dos anestésicos de inalação. Em janeiro de 1859, o jornal “The Times” citou um artigo de “The Westminster Review” no qual se estimava em 1,2 milhões o número de anestesias realizadas nos dez anos anteriores nos Estados Unidos da América, Inglaterra, França e Alemanha. O número de mortes resultantes da aplicação do processo era estimado em 74, sendo o clorofórmio o mais utilizado e, portanto, o que provocava mais óbitos.
Em 1869 foi utilizada, pela primeira vez, uma anestesia mista, proposta alguns anos antes por Claude Bernard. Baseava-se na injeção hipodérmica de cloridrato de morfina, antes da inalação de clorofórmio.
Em 1879, Paul Bert publicou um trabalho intitulado Anesthésie par le Protoxyde d`Azote mélangé d`Oxygène et employé sous pression. Referia-se a experiências efetuadas em animais. A aplicação a seres humanos não tardou e, em 1880, Raphael Blanchard publicou em Paris uma tese de dissertação que referia o emprego da nova técnica. A novidade chegou depressa a Portugal. Em Julho de 1880, António Magalhães apresentou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto uma Tese de Dissertação Inaugural subordinada ao tema “Anestesia Proto-azótica”.
Aos poucos, foram sendo experimentados novos agentes anestésicos. O Brometo de Etilo foi apresentado em Portugal por António Leitão, em 1882, com base na experiência de autores franceses.
O éter e o clorofórmio foram os produtos mais utilizados em Anestesia Geral durante meio século. Foram sendo progressivamente abandonados à medida que foram sendo conhecidos agentes anestésicos mais eficazes e seguros.
Em 1946, um século após o seu início da anestesia clínica, foi proposta na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa a criação de especialistas em Anestesia. 

Fonte: Figueiredo Lima, Joaquim. A Anestesia em Portugal (sec. XIX e início do sec. XX). Chiado Editora, Lisboa, 2016.